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Saudade dos pais e crise financeira levam produtora a trocar a cidade pelo campo para investir na criação de frangos

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A saudade dos pais foi o primeiro motivo que levou Luciane Oliveira a pensar em deixar São Paulo e começar uma nova vida no campo. A decisão ganhou força durante a crise financeira de 2008, quando os planos de abrir uma loja de roupas deram lugar a uma oportunidade inesperada: investir na criação de frangos.

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Quase 18 anos depois, a antiga moradora da cidade grande é uma das responsáveis pela produção avícola do Sítio Aconchego, em Guaxupé, no sul de Minas Gerais. Ao lado dos pais, Alceu e Laurinda Oliveira, ela encontrou na atividade uma fonte de renda e, principalmente, uma maneira de manter a família reunida.

“Eu era a mulher do salto alto e hoje sou a mulher da bota de borracha”, brinca Luciane, ao recordar a transformação que viveu.

A saudade que motivou a mudança

Antes de se tornar avicultora, Luciane levava uma vida urbana em São Paulo. Enquanto ela trabalhava na capital paulista, seus pais haviam realizado o antigo sonho de comprar uma propriedade rural.

Com os irmãos seguindo caminhos diferentes, a distância começou a pesar. Luciane percebeu que não queria continuar longe dos pais.

“Minha irmã foi morar fora, meu irmão casou, então eu falei: ‘Sozinha aqui não dá para ficar, eu não vou aguentar’. Resolvi perguntar: ‘Pai, tem lugar para mim aí?’. Ele falou: ‘Bora’”, relembra.

A mudança para Minas Gerais representava uma oportunidade de recomeçar, mas ainda era necessário encontrar uma atividade que garantisse sua renda.

Inicialmente, Luciane pretendia abrir uma loja de roupas. Entretanto, a crise financeira de 2008 trouxe incertezas e fez com que a família procurasse outra alternativa de investimento.

“Eu queria montar uma loja de roupa, mas veio a crise financeira de 2008. A gente foi procurar uma forma de ganhar dinheiro da terra, uma coisa que tivesse lastro. Aí entramos na integração e encontramos o frango”, conta.

Até então, o Sítio Aconchego não tinha estrutura para a produção avícola. A construção da granja surgiu justamente da necessidade de transformar a propriedade em um negócio capaz de sustentar a nova fase da família.

Do salto alto à bota de borracha

O primeiro lote de frangos chegou à propriedade em janeiro de 2009. Sem experiência anterior na atividade, Luciane precisou aprender os cuidados com os animais, as exigências do manejo e a importância de acompanhar diariamente as condições da granja.

A rotina era muito diferente daquela que conhecia em São Paulo.

“Você aprende que a comida não nasce no saco do supermercado. Aprende a amar mais a natureza e aprende que lidar com o frango é lidar com um ser vivo. Todo dia é diferente, todo dia é um aprendizado”, afirma.

Para ela, a criação de aves exige dedicação constante. Mudanças de temperatura, comportamento dos animais e condições dos galpões precisam ser observadas para garantir o desenvolvimento adequado dos lotes.

“O desafio é o que me move. Porque todo dia é diferente. Ontem estava calor, era de um jeito; hoje está frio, é de outro. E é o mesmo frango que está ali”, explica.

A produtora reconhece que o trabalho não proporciona tanto tempo livre quanto algumas pessoas imaginam. Ainda assim, considera que estar perto dos pais e desenvolver uma atividade na própria propriedade compensam os desafios.

“A vida no campo é paz. E a avicultura hoje não é só criar frango, é alimento. Meu pai costuma dizer que é uma fábrica de carne. Então a gente trabalha com alimento”, destaca.

A adaptação à avicultura também trouxe momentos difíceis. Um dos episódios mais marcantes aconteceu logo no primeiro lote, quando 34 frangos morreram já próximos da idade de abate. Embora a granja tivesse alojado cerca de 14 mil aves, a perda abalou profundamente Luciane.

“Para mim, aquilo era uma perda inominável. Eu considerei que estava derrotada, que não tinha aprendido nada do que o extensionista tinha falado”, recorda.

A frustração foi tão grande que ela passou o dia chorando.

“Eu sentei, chorei, não almocei, não jantei, só chorei. Mas também serviu de base para aprender que, com aquele erro, eu podia acertar e que todo erro tem conserto.”

Com o passar dos anos, a experiência trouxe mais segurança para lidar com os desafios da produção. Hoje, Luciane acredita que o conhecimento técnico precisa caminhar ao lado da observação diária dos animais.

“Cuidar de frango é olho. É como se fosse um bebê na incubadora. Você tem que estar ali todo dia. Não adianta o painel te dizer alguma coisa. Quem tem que te dizer é o frango.”

O sonho dos pais que deu origem ao negócio familiar

Muito antes da chegada de Luciane ao campo, o Sítio Aconchego já representava uma conquista para Alceu e Laurinda.

Nascido em Andradina, no interior paulista, Alceu começou a trabalhar ainda jovem na zona rural, prestando serviços em diferentes propriedades.

Apesar das dificuldades, guarda boas lembranças daquele período.

“Eu gostava do que fazia na roça. Sempre fiz tudo com prazer. Trabalhava por dia para um e para outro, mas eu era feliz”, conta.

Em 1975, ele e a esposa decidiram tentar uma vida diferente em São Paulo. Alceu conseguiu emprego em uma indústria, onde começou como ajudante de fabricação e foi promovido a operador de máquinas após seis meses.

Depois de décadas de trabalho e economia, a aposentadoria permitiu que o casal procurasse uma propriedade no interior.

Foi assim que chegaram a Guaxupé. Laurinda conta que a escolha do sítio aconteceu de maneira especial. Ao se aproximar da propriedade, sentiu que havia encontrado o lugar onde gostaria de viver.

“Eu pedi para Deus: ‘Mostra onde vai ser’. E, quando a gente estava chegando, eu vi as árvores e falei: ‘É aqui, pode parar o carro’”, recorda.

Para Alceu, a propriedade é resultado de uma vida inteira de esforço.

“Isso aqui não foi herança, foi trabalho, economia. Foi uma roupa remendada, uma roupa cuidada, uma roupa bem lavada”, afirma.

O que começou como um sonho de aposentadoria acabou se tornando também uma oportunidade de trabalho para a filha.

Uma granja construída com aprendizado e dedicação

Atualmente, a propriedade conta com dois galpões de criação de frangos, equipados com diferentes sistemas de ventilação e controle ambiental.

Ao longo dos anos, a família realizou melhorias na estrutura, incluindo substituição de cortinas e adoção de aquecimento a gás.

O acompanhamento de profissionais da assistência técnica também contribuiu para o desenvolvimento da atividade.

Segundo o extensionista que acompanha a propriedade, a dedicação dos Oliveira é um dos principais diferenciais da granja.

“É o básico bem feito. É cuidar. O diferencial deles é trabalhar em cima de cada lote, independentemente do que vem. É uma determinação e uma dedicação muito grandes”, afirma.

A propriedade já participou de avaliações de desempenho entre produtores integrados e alcançou a décima colocação em uma das classificações mais recentes mencionadas pela equipe técnica.

Mesmo com a evolução dos equipamentos, Luciane acredita que a experiência adquirida na prática continua sendo indispensável.

“Não existe um caderno que te ensina a criar frango. A pessoa pode ensinar, escrever, fazer o que for. Você tem que ter o seu olhar. Se não estiver caminhando dentro da granja, se a família não estiver unida e todo mundo tiver o mesmo objetivo, não funciona.”

De volta pro aconchego

O nome escolhido para a propriedade resume o sentimento que motivou a mudança de Luciane.

A inspiração surgiu quando ela ouviu, no rádio do carro, a música De Volta pro Aconchego, interpretada por Elba Ramalho.

Naquele momento, os pais estavam se preparando para viver no interior, enquanto ela ainda permanecia na capital paulista.

“Eu senti que pais são ninho e filhos são passarinho. Então eles iam voltar para o ninho. Por isso ficou Aconchego”, explica.

Anos depois, Luciane também retornaria àquele lugar, encontrando na criação de frangos uma nova profissão e a possibilidade de conviver diariamente com a família.

Hoje, a avicultura é também uma atividade que gera empregos e movimenta outros segmentos da cadeia produtiva.

“Aqui a gente gera dois empregos, mas gera toda uma cadeia atrás. É o que faz o mundo mover. Porque, se o agricultor não for teimoso e não for atrás, não tem comida no mercado”, afirma.

Legado familiar

Quase 18 anos após o início da produção, a família Oliveira continua olhando para o futuro.

Entre os projetos discutidos está a possibilidade de construir um terceiro galpão, investimento que exigiria adaptações na infraestrutura de energia, água e geração fotovoltaica.

Luciane é apontada como a provável sucessora do negócio, dando continuidade ao trabalho desenvolvido ao lado dos pais.

Para Alceu, entretanto, a maior realização vai além da propriedade ou dos resultados da granja.

“Eu sou feliz aqui, independentemente de granja, independentemente de tudo. A gente conseguiu isso aqui com trabalho e economia”, diz.

Laurinda também destaca o valor da família que construíram ao longo de mais de cinco décadas de casamento.

“Independentemente de dinheiro, nós temos uma família que é uma bênção. Então eu sou feliz com a família. Nunca me arrependi.”

Para Luciane, a saudade que a fez deixar São Paulo acabou se transformando em uma oportunidade de construir uma nova história ao lado dos pais.

E a satisfação de ver o resultado do trabalho aparece em cada lote de aves que deixa a propriedade.

“É ver o frango crescer. Chega aquele pintinho que a sua mão pega dois, e você vê sair aquela ave grande. Aí você fala: ‘É o meu suor que está ali, e o meu suor está frutificando’.”

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