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Com inteligência artificial, cientistas buscam decifrar sinais de estresse da natureza

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Projeto Apeiron vai monitorar respostas metabólicas de espécies urbanas para criar um índice de resiliência ambiental, inspirado no conhecimento de profetas da chuva.

Em Quixadá, no Ceará, Renato Lino, de 78 anos, aprendeu com o pai a interpretar os sinais da natureza para fazer previsões climáticas. “É a catingueira que descasca, é a casinha da maria-de-barro, é o angico e muitas coisas que a gente observa”, conta. Ele observa árvores e pássaros, como o Funarius furnus (maria-de-barro), cuja entrada do ninho indica se vai chover. “Tudo isso é coisa que a gente vai ajuntando, vai anotando”, explica o “cientista” do sertão.

Esse conhecimento empírico agora inspira pesquisadores que querem usar tecnologia digital e inteligência artificial para decodificar a comunicação dos seres vivos. O projeto, chamado Apeiron (termo grego que significa ilimitado), será iniciado em Recife até novembro, sob coordenação do Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife (CESAR). A ideia é monitorar espécies urbanas para entender o que “falam” sobre o ambiente.

Equipamentos vão captar sons de morcegos, ritmo de abertura e fechamento de conchas de ostras, transpiração de aroeiras (árvore nativa) e voo de abelhas em Recife. Os dados serão comparados com registros das mesmas espécies em áreas menos impactadas, como a Reserva Ambiental de Saltinho e a APA de Guadalupe, ambas no litoral sul de Pernambuco.

“As respostas metabólicas são particulares de cada organismo, mas muitas vezes isso não é utilizado como informação, simplesmente porque a gente não consegue entender aquela língua”, afirma Artur Maia, biólogo e pesquisador do departamento de botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele compara o projeto a uma “Babel reversa”.

“As ostras, por exemplo, tendem a abrir com menor frequência em condições adversas. Ela segura a onda, reduz a frequência de filtração e fica sem se alimentar para se manter naquele ambiente e evitar o acúmulo de metal pesado e outras coisas”, explica Artur. A diferença entre o “ritmo de vida” de uma ostra estressada e outra em área protegida revela a resiliência metabólica da espécie. “Eu quero verificar o quanto aquele organismo está se esforçando para sobreviver naquele ambiente”, completa.

O objetivo é calcular o Índice de Resiliência Metabólica (IRM) do local, algo similar ao IDH, mas com parâmetros ambientais. “O estresse é uma informação que não pode ser fingida. Essa resposta metabólica existiu, aconteceu. O que a gente quer é, de posse dessa informação, juntar o nervosismo da abelha, a movimentação da ostra mais tranquila, a respiração da aroeira, para ter um índice de resiliência metabólica, que a gente quer padronizar numa escala de 0 a 100”, detalha o pesquisador.

Assim como seu Lino transforma observações em previsões, Artur Maia acredita que o monitoramento metabólico pode gerar ações concretas, como “um planejamento urbano pensando na cidade como um organismo vivo, com as suas particularidades”. Ele exemplifica: “Pode ser que, por exemplo, lá na Mustardinha [bairro de Recife] a pressão térmica para aqueles habitantes não se reflita em desconforto habitacional como se reflete para o habitante da zona norte, no bairro de Casa Forte. Então essa pressão é diferente. Se tem uma coisa que você não pode fingir, é conforto metabólico”, conclui.

Com informacoes de correiodoestado.

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